quarta-feira, março 22, 2006

O Palácio Boa Vista




O Palácio Boa Vista está inserido na geografia do Vale do Paraíba e possui uma notável coleção representativa de obras de arte brasileira dos séc. XIX, XX, do Modernismo à arte abstrata.
Este acervo é importante para todos os paulistas, porém, nós paulistas do Vale do Paraíba somos privilegiados com a proximidade que temos com Campos do Jordão e que nos permite visitar e revisitar este Palácio/Museu com sua coleção criteriosamente escolhida, estudada em cada peça, e zelada para que todos os visitantes possam, ao olhar essa coleção, fazer um passeio pela arte brasileira e de certa forma, pelo Brasil.
Poucos talvez consigam avaliar a importância ou a preciosidade deste acervo para o imaginário do visitante. No entanto, o relato de uma mudança no Palácio Boa Vista, em 2004, quando a tela “Operários[1]”(1933) da artista Tarsila do Amaral foi removida de onde estava, e transferida para a Estação Pinacoteca pode evidenciar essa importância. Esse fato ocasionou um tumulto pois muitos visitantes estranharam a ausência da tela exposta há mais de trinta anos naquela parede de uma das salas do andar térreo. Onde estaria “Operários”, quando ela retornaria para a parede do salão dos despachos? Essas perguntas que, de início, eram feitas aos monitores do Palácio, passaram a ser enviadas em cartas para os jornais da capital sob a forma de reclamações indignadas. A Câmara dos Vereadores de Campos do Jordão teve uma sessão plenária agitada, e até a Prefeitura interferiu junto ao governo estadual cobrando a volta da tela que já estava segura na Pinacoteca do Estado.
O que pode ter ocorrido no íntimo dos visitantes para tê-los incomodado tanto assim?
Traçando um paralelo com um fato histórico, poderemos entender que não era só a ausência da tela de 150x250 que incomodava o visitante do palácio, mas o vazio deixado na parede do salão era um fato que chocava a todos.
Numa manhã, em 1911, no museu do Louvre um homem franzino roubou a Mona Lisa. O roubo foi notado no dia seguinte, e assim, mais de sessenta detetives envolveram-se com o seqüestro da Dama que ocupou as primeiras páginas dos jornais. Paralelamente, pequenas multidões ocorreram ao Louvre para, pasmados, olharem o vazio deixado na parede. Inquietos, olhavam perplexos para o local desocupado onde antes estava o quadro. Este relato foi estudado por muitos autores e existe uma recente publicação, O Roubo da Mona Lisa[2], da autoria um psicanalista inglês, Darian Leader, que deixa claro a inquietação que causa o espaço especial sagrado que a obra de arte habita. Um espaço que não podemos ver, mas que ao surgir nu, com a retirada de uma tela, é muito perturbador. Assim ocorreu com os visitantes do Palácio Boa Vista e com a tela de Tarsila do Amaral no ano de 2004.
Ler esse livro de Leader, ou visitar o Palácio Boa Vista, pode dar uma idéia do significado deste, aparentemente pequeno incidente, mas devemos também perguntar aos responsáveis pelo Palácio Boa Vista o paradeiro da tela "A Maternidade" de Vicente do Rego Monteiro da qual muitos tem sentido a falta e notado a longa ausência...

1] Col. Gov. Estado de São Paulo
[2] Darian, L., O roubo da Mona Lisa: o que a arte nos impede de ver/ tradução José Silva e Sousa.- Rio de Janeiro, Elsevier,2005

1 Comments:

Blogger marcelomello said...

ola orlando ! entrei no blog ha alguns dias e reparei que não havia mudanças pois achava que as ultimas noticias sempre vinham primeiro( normal em outros blogs de noticias )fiquei surpreso quando vi algumas novas misturas com antigas , talvez seja melhor ordena-las para melhor leitura . abraços , marcelo mello .

12:30 AM  

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